FISSURA COMO POSSIBILIDADE

Mesmo sob as mais variadas circunstâncias ou contextos, o artista efetivamente fará o que tem que ser feito. O artista cumprirá seu desígnio, sob qualquer rito, ou regra, ou sistemática. O artista fará o seu papel, exteriorizará sua alma. O Trabalho acontecerá.

Pois é mais do que sabido que só a arte dará conta da nossa necessidade de compreensão do real.

A arte é a estimuladora de almas. Excitadora anímica, provocadora, que traz a confusão bem quista. Que nos lança ao confronto com nosso tempo, nossos dias contados, por isso tão caros, e tão difíceis de ler. Nosso tempo não deixará de ser uma época de atordoamento e perplexidade, de acontecimentos que se sucedem sem descanso e que sobrepõem espantos, apenas pela capacidade de influência do fazer artístico. Vivamos com isso. Mas certamente este fazer e este fruir, este comprometimento, nos será útil sempre que formos confrontados com aspectos incômodos ou pouco compreensíveis daquilo que vivenciamos. Numa realidade onde as fronteiras éticas estão em ruínas e a intenção de erigir muros físicos está em voga, precisamos aprender a encarar todo um farto sortimento de atitudes calcadas na angústia e na completa supressão da empatia mais elementar.

Não se trata de embate, pois as narrativas de confronto já não dão conta nem da estratégia, nem da missão: o sistema tem como fundamento de sua competência a “nobre” prática da cooptação, e anular as velhas iniciativas de combate é mais fácil à cada dia, posto que estão mais do que caducas.

É na construção particularizada de narrativas que se pretendem hegemônicas que se dão os debates que importam, em nossos dias. Estão nas redes, nas mídias, nos circuitos ideológicos: vence-se por abrangência, por capilaridade, por viralização, demarcação de posições. Ainda há a maciça influência dos meios convencionais de comunicação, mas cada vez mais as construções de grupos ideológicos específicos e de certas opiniões se dão muitas vezes graças a algoritmos em aplicativos de mídias sociais. Ainda dá para mudar o mundo à partir de uma mesa de bar? Talvez sim, talvez não.

De qualquer modo, o trabalho acontecerá, o artista fará o que tem de ser feito. Mesmo num mundo que pune o espírito criador com privações materiais, um mundo rude que louva a objetividade mas que, velho senil que é, há muito não lhe reconhece a face. Mundo cujas fronteiras, que são fisicamente tênues no macro espaço transnacional, que testemunham fluxos nunca antes constatados de pessoas e histórias, são robustas e intransponíveis em vários aspectos do microcosmo relacional, social, humano.

São realidades maciças, barreiras resilientes, anti-encontro, anti-construção, anti-vivência.

Há muito o que o artista possa fazer a respeito, mesmo que os resultados sejam sutis e de difícil percepção. Por isso mesmo e ainda assim ele fará o que tem que ser feito, sob as mais variadas circunstâncias. Seu trabalho verá a luz do dia.

O caminho institucional da arte, seja ele público ou privado, viabiliza a construção de discursos e as leituras que o artista entenda como pertinentes, posto que o profissionaliza, e assim ele pode desenvolver a sua retórica e fazer suas intervenções dentro de uma espécie de “conforto de aparato”, algo próximo do que poderia ser chamado de “condições ideais de ação”. Mas a questão é: o fazer artístico é uma necessidade imperativa, e a existência de condições ideais constituem uma improbabilidade absolutamente irrefutável. O artista precisa colocar seu trabalho na rua, mesmo que sob a pressão de realidades monolíticas que se imponham como intransponíveis. E vai fazê-lo.

FISSURA é um projeto de ocupação artística solidária, organizada e gerida em conjunto, que se propõe a veicular esse trabalho. O artista dará o seu recado, no seu tempo e sob seus termos, e a FISSURA é uma possibilidade, uma ocorrência dessa natureza. Quando os artistas que iniciaram este projeto o batizaram de FISSURA, metaforizando o estado físico do local escolhido, não podiam ter intuído nome mais adequado.

 

 

Toda a estrutura, ou toda realidade monolítica (usemos a metáfora que for) tende ao colapso. Pelo tempo, pelo estresse da matéria, pela falta de reparos, pela exaustão, pelos novos modo de ver e sentir. Tudo parte de um pequeno sinal, imperceptível no princípio, mas que surge como que se dotado de dons premonitórios, declarando as chances de continuidade desta estrutura: uma linha, uma fenda, uma rachadura, uma fissura.

As fissuras são ocorrências oriundas de processos de existência: tudo vai ceder, fender, até ruir, inevitavelmente. A inevitabilidade da fissura é inerente à impavidez do fluxo vital e se ela se abre, na pele, na parede ou na alvenaria social, cabe então resolver que atitude ela nos motivará a tomar.

As fissuras retém material e, ainda que sejam indício de instabilidade, podem indicar aberturas por onde coisas inesperadas e improváveis tornar-se-ão visíveis; provoca sempre um novo olhar, retira o observador do repouso, exige uma atitude.

Pela fissura, coisas podem eventualmente passar. Ou podem eventualmente se prender.

Podemos preencher a fissura. Observá-la, acompanhá-la, repará-la.

Podemos tomá-la por benigna, e apenas observar até onde ela vai.

Podemos perceber que é maligna, então combate-la.

Podemos nos excitar com ela, na forma do frisson que o mesmo termo designa.

Podemos simplesmente ignorar a fissura, inclusive. Mas não sem um preço imprevisível a pagar.

Toda realidade monolítica tende a fissurar, resta entender a natureza e as consequências disso. E tomar providências quanto às possibilidades.

FISSURA é um projeto de ocupação artística que lida justamente com essas providências e possibilidades.

 

FORMA

 

No caso que se apresenta, a fissura se materializou na forma de uma casa, fissurada, instável, precária, demandando urgência no seu trato. Uma abertura frágil no coração da metrópole.

Um espaço físico disponível, no seu nobre bairro e com vizinhança abastada, galerias de arte e bancos e escritórios e lojas. E a casa, no meio.

A casa está vazia, com seus dias contados, portanto tão caros: destino traçado, a casa desaparecerá, selando a fissura aberta de uma vez por todas, e dando lugar para seus vizinhos de praxe. Eles “consertarão” a fissura.

Mas a casa está viva. Ainda respira, fendida, deslocada, fora do prumo. Fissuras ativas, abertas, a casa ainda está de pé.

Uma casa-tela, casa-matéria, casa-instrumento, pincel e tinta.

Um grupo de artistas resolveu ocupá-la, antes do seu fim. Não poderia passar desapercebido um espaço assim, brecha aberta no meio da cidade, com tanto a ser dito, com tamanha demanda por espaço sensível, ativável.

Suas propostas são as mais abrangentes: boa parte do repertório da arte contemporânea será contemplado de um modo ou de outro, mas a ocupação que se trama irá além da distribuição de objetos impregnados de sentido pelos espaços precários da casa-encontro. Os artistas estão livres para propor não somente o uso e ocupação dos cômodos remanescentes da casa com seus trabalhos mas, também e sobretudo, a proposição de trabalhos que dialoguem entre si, que sejam construídos ao longo do tempo de exposição, que ativem a si e ao espaço de modo dinâmico, colaborativo, coletivo.

A somatória das ações e intervenções, as obras de arte e suas contrapartidas físicas, a presença das pessoas, a suprema ativação que só o público pode prover, tudo isso gerará a forma que será experimentada, a forma que será percebida, que se configurará na ocupação dos espaços e seu uso como elemento constituinte dos trabalhos: trata-se de uma casa que será tela, matéria e instrumento desses artistas, e sob sua ação, será composta essa grande forma. Os curadores são todos os artistas, o organizador é um ente coletivo, sem face e com todas as faces ao mesmo tempo.

A singular forma que se cria e que será percebida é sobretudo colaborativa e relacional, e que se torna visível com as ações sobrepostas dos artistas em relação a si e aos outros, e da qual as obras são arestas primordiais. Muitos trabalhos estarão em progressão e sobreposição e, mesmo aqueles dotados de um caráter conclusivo, serão ativados repetidamente pelas ações que se propõem.

A casa ocupada é a Obra em constituição. Os trabalhos, as pessoas, os espaços, os acontecimentos, são suas partículas componentes. Pode-se fruir cada trabalho individualmente; pode-se apenas observar o espaço na sua poética decrepitude, pode-se aproveitar os encontros, não importa: uma grande ação de arte estará em andamento.

O espaço inusitado, a casa-tela, se apresenta de modo fortuito, e os artistas farão o que tem que fazer. Os trabalhos acontecerão, e a forma será percebida, pela fresta, pela fissura.

 

 

A Fissura é uma iniciativa independente, espontânea e genuína, de artistas dotados do querer criativo, que não esperam a roda girar, mas que giram a roda e jogam os dados; dos artistas que, neste projeto, fincam os pés na equidistância tanto do aparato institucional da arte privada, como da estrutura burocrática do estado-provedor. Não é uma questão de portas que não se abrem, e sim se essas portas são as que interessam abrir. Ou então, de abrir novos vãos na cansada alvenaria.

Ações como a ocupação FISSURA são pequenos nós de interseção, pontos de acesso à grande rede das relações humanas, por onde pode se introduzir a contrainformação, o anti-dado lógico, gigabytes de alma, tramando a inserção de dados no contra fluxo dos circuitos ideológicos em pleno funcionamento, que massificam, diluem, totalizam, aplicando tensão sobre a lona do circo social, engastando seus pregos, cravando os ganchos no chão das possibilidades. A alegoria é irresistível: num mundo monolítico, maciço, de fundamentalistas com pretensas certezas absolutas, o que sobra para o respirar do pensamento? A fresta, o vão fortuito, a abertura involuntária, fissuras e rachaduras, vazios a serem preenchidos graças à plasticidade do fazer artístico.

A casa abriu suas entranhas, e será possuída, violada. Será depenada, e suas vergonhas e segredos e belezas comporão o quadro. Não escaparão, ao olhar dos artistas e de seu público, os cantos, as fendas, cada vidro estilhaçado e cada vão sem luz: cada fissura física constrói a FISSURA ideal que se ocupa neste ato. Em conjunto, os trabalhos ocuparão seu lugares na grande tela, numa composição coletiva, que se dinamiza na fresta que se abre. O recado será dado.

 

OUTPUT

 

Fazer do encontro um evento inevitável é a vocação e a obrigação da Fissura. Juntar as pessoas, prover a reflexão, levar ao contato com a arte, criar novos amantes para ela, chamar o público à sua ativação. Sua abrangência não pode se circunscrever ao espaço da casa, há que se transmitir os ecos dessa ação pelas redes, pelos circuitos, sejam em seus meios eletrônicos de contato social e troca de informação, sejam lambe-lambes colados num poste, sejam “flyers” em xerox, seja na grande mídia, seja no boca-a-boca. A fissura precisa se configurar como forma relacional, ou não terá cumprido sua vocação. E esta é uma Fissura: outras virão, decerto.

Enquanto são lidas essas mal traçadas, a obra já está acontecendo, espelhando suas conexões, enredando, penetrando, se constituindo em FORMA viva, interpessoal e coletiva, pois quando o primeiro artista ativa os primeiros centímetros do espaço com seu olhar, o fenômeno da obra já foi desencadeado, e a forma surge para ser percebida e, com sorte, apreciada.

A primeira FISSURA se abre e é sentida num espaço provisório, finito, condenado: mas não são assim, de certo modo, quaisquer espaços? Tudo depende de como lidamos com ou relativizamos o tempo. São provisórios todos os espaços da cidade, em última análise. E neles achamo-nos juntos, de modo fortuito e surpreendente. Viver a plenitude do tempo presente, de tão simples, e tão fundamental, ganha um verniz de ação política nos dias de hoje.

 

Os afetos, os trajetos, os relicários mais significativos, as trocas, todas as experiências tem obrigatoriamente um lugar para ocorrer. Somos gente, somos o que precisa estar no cerne. Há que se provocar os encontros e as sensibilidades. Somos muito mais do que moléculas de carbono bem arranjadas, humanos na busca de espaço de existência plena.

Cabe ao artista falar disso, pois se sobrasse apenas uma categoria de gente capaz de ler e amar o mundo, esta seria a dos artistas.

FISSURA serve para isso.

A FISSURA continuará ativa, retendo e expelindo matéria e sonhos, abrindo as brechas e fazendo ruir o que mereça esse destino.

Onde ela abrirá novamente? Aguardamos ansiosos sua próxima manifestação, enquanto desfrutamos sua presença

                  Georg Viné Boldt,  outubro de 2016

 

(O ensaio acima faz da parte da elaboração curatorial da Ocupação Artística FISSURA, a ocorrer de 29 de outubro a 4 de dezembro de 2016, em São Paulo)

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